domingo, 8 de maio de 2011

Touro: reorientar os desejos

 Ricardo Georgini
 

O trabalho de Hércules associado ao signo de Touro é a captura do touro de Creta. O signo de Touro diz respeito ao modo como lidamos com a matéria. Todo uso da matéria é motivado pelo desejo, seja um desejo egoísta e ignorante ou um desejo altruísta e iluminado. Este trabalho de Hércules representa a reorientação dos desejos, de modo que deixem de estar voltados exclusivamente para o benefício individual e passem a estar dirigidos para o bem maior, coletivo.
Netuno (Senhor dos Mares) havia presenteado o rei da ilha de Creta com um touro sagrado. Entretanto, o rei pretendia sacrificar o animal. A tarefa de Hércules era resgatar o touro e levá-lo da ilha para o continente, onde estaria a salvo. Para encontrar o animal naquela ilha, Hércules se guia por uma luz que brilhava na fronte do touro. Quando finalmente consegue chegar até o touro, o herói monta sobre ele como se este fosse um cavalo, e assim cavalga o touro, atravessando o mar, até o continente.
O touro, com sua constituição robusta, representa o nosso corpo. E tal como o touro, o corpo é sagrado. Toda matéria é, em si mesma, sagrada. O que não é sagrado, muitas vezes, é o uso que fazemos da matéria e do corpo. O problema é que o touro está na ilha, um símbolo de isolamento e exclusivismo. Este é todo o mal e o verdadeiro e único pecado: separatividade. Semelhantemente, todo bem e toda virtude podem ser resumidos como amor, união e fraternidade. O continente representa isso, a integração da parte no todo, a coletividade.
Assim, o único problema a respeito dos bens materiais, do dinheiro e do corpo, com seus apetites, é que temos usado tudo isso para a satisfação dos nossos desejos egoístas. A solução não virá maldizendo a matéria, maltratando o corpo ou tentando suprimir todo desejo. O touro não deveria ser sacrificado, mas resgatado para o continente. Todas as formas materiais e as capacidades do corpo devem ser colocadas a serviço da coletividade. Isto será feito quando os desejos forem reorientados para o bem de todos. “Aquilo que você deseja de bom para você, procure desejar igualmente para todos.”
Mas como conseguiremos canalizar dessa maneira as forças do desejo? Hércules inicia guiando-se pela luz na fronte do touro. Esta luz simboliza um centro de energia localizado entre as nossas sobrancelhas, chamado chacra frontal. Ele está relacionado com o córtex frontal, a região do cérebro que é responsável pela nossa capacidade de nos auto-observar, de direcionar a nossa atenção para onde quisermos e de fazer escolhas conscientes. O primeiro passo, portanto, é acionarmos essas capacidades, tão próprias do ser humano, e procurarmos observar com alguma imparcialidade as emoções e desejos que se movem dentro de nós. Assim montamos sobre o touro, e poderemos cavalgá-lo.
Quando nos identificamos excessivamente com uma emoção ou desejo, nós nos tornamos sua vítima, e somos arrastados a fazer isto ou aquilo de acordo com tais impulsos internos, que nos controlam. Mas quando nos observamos com desprendimento e imparcialidade, podemos permanecer internamente livres para escolher o que fazer com as nossas emoções e desejos. Então fica possível canalizá-los de maneira mais sábia e construtiva, para o maior bem de todos.
O signo de Touro nos confere essa qualidade de percepção esclarecida, iluminada, que pode ser aprendida com a experiência. Gradualmente, através das experiências em meio à matéria, podemos compreender melhor a nós mesmos, e descobrir que todo benefício individual é ilusório e temporário, e apenas o bem coletivo é real e permanente.
Ricardo A. Georgini
ricardogeorgini@yahoo.com.br